A DÉCIMA-NONA

Fábia Pereira Lima

Resumo


A Décima-Nona edição da Revista Brasileira de Iniciação Científica em Comunicação (INICIACOM) chega com a marca de um ano de convivência com a pandemia de covid-19 no país. Uma realidade que impôs novas formas de auto-conhecimento e sociabilidade, novas dinâmicas de aprendizado, de afetos e de trabalhos, cujos impactos psicológicos, sociais e econômicos ainda não conseguimos mensurar.

Enquanto vivemos esta nova experiência, pudemos perceber toda a potência da pesquisa e do pensamento científico construindo respostas para os desafios de nosso tempo, no enfrentamento do novo coronavirus. Notadamente, percebemos como a comunicação se estabelece como uma dimensão extremamente relevante e estratégica em situação de pandemia. A divulgação científica, que sustenta a informação qualificada, baseada em pesquisas científicas, é reconhecidamente uma das frentes mais importantes na defesa da saúde coletiva da população e, claro, no combate à covid-19. Por isto, fomentar a produção de uma publicação científica voltada para estudantes de comunicação social é reconhecer a importância e trabalhar pela valorização da formação de jovens cientistas que constroem um lugar de fala próprio nos estudos da comunicação.

A Décima-Nona Iniciacom traz quinze artigos que evidenciam algumas das principais problemáticas que pautam a pesquisa brasileira de iniciação científica em comunicação. Os seis primeiros trabalhos trazem um olhar sobre processos e práticas de comunicação em uma arena de debate público cada vez mais contaminada por esforços de desinformação, atravessada pela difusão das redes sociais digitais e várias transformações no ambiente organizacional. Em O fact-checking no processo democrático: O projeto truco nas eleições 2018, Andreza Laranja e Rostand Melo discutem a importância do fact-checking para o processo democrático a partir da análise das checagens do Projeto Truco, da Agência Pública, durante o segundo turno das eleições 2018, defendendo a importância do jornalismo como fonte de informação e a garantia da transparência do debate político. Em O fenômeno das fake news a partir da experiência nos bairros de Belém (PA), Darlann dos Santos e Will Teixeira analisam como as fake news são difundidas nas redes sociais digitais, capazes de influenciar ações, crenças e/ou visões políticas. No capítulo Informação Jornalística no Twitter: o estudo de caso da boate Burning Sun, Camila Carneiro e Raquel Rodrigues pesquisam o Twitter como um canal que possibilita produção de conteúdo informativo para um público brasileiro de nicho segmentado sobre pautas jornalísticas internacionais. Em Manutenção de padrões gráficos de jornais impressos no digital: um apelo à memória, Thalita Gonçalves, Letícia Negromonte, David Brito Junior, Thamyres Clementino e Camila Silva apresentam estudo sobre elementos visuais usados para gerar confiabilidade em ambientes virtuais no esforço pela manutenção da memória de jornais impressos. No trabalho intitulado Investigando a NHK: A imagem da radiodifusora pública em 1Q84, de Haruki Murakami, Lucas Justino investiga a presença da única radiodifusora pública do Japão no romance do autor japonês. Já em A função da Comunicação Organizacional na gestão da sustentabilidade: estudo multicaso no setor bancário, Ana Paula Dias pesquisa três instituições financeiras trazendo reflexões acerca do processo comunicacional das organizações frente ao novo paradigma da sustentabilidade.

Os trabalhos seguintes evidenciam uma preocupação incisiva sobre a questão da representação midiática de pautas sociais de relevo. Em Panther is the New Black: Representatividade e Cultura na Comunicação do Filme Pantera Negra, Rodrigo de Paiva e Leonardo Falcão analisam o impacto social e comercial no contexto mercadológico do longa-metragem de 2018. No trabalho Representações de gênero nos filmes Branca de Neve e os Sete Anões e Moana: um mar de aventuras, Ana Clara Cabeceira e Rafiza Varão discutem como a identidade se conecta ao gênero, com base nas propostas de Stuart Hall, a partir de uma análise das representações de gênero de dois filmes, indicando como os padrões impostos às mulheres mudaram desde o começo do século XXI. Ainda abordando a temática da representação feminina midiática, Carolina Apolinário, em “A sua esposinha foi embora e não vai mais voltar”: A figura da anti-heroína na série de TV Good Girls, analisa trechos de episódios e percepções acerca da referida série para contextualizar a trajetória de representação feminina na TV estadunidense, do melodrama doméstico, até a figura da New Woman e das anti-heroínas. O estudo Pensando a criança queer a partir de Tomboy, de Daniel Jacobsen, enfoca o debate acerca do sujeito queer, com foco especial na infância.

Na vertente de estudos aplicados, Ives Souza e Natália Vargens trazem o trabalho Experiência em diagnóstico e planejamento em comunicação para mobilização social: o caso do Instituto Cresce, que apresenta o processo de elaboração do diagnóstico e plano de ações em comunicação para o Instituto Cresce - instituição comprometida com a promoção da cidadania ambiental no município de Nova Lima, MG. Em Moda e Consumo Periférico: Estudo de Caso sobre a marca 1Dasul e a construção de identidade nas periferias de São Paulo, Danilo Moura e Anderson Campos estudam a marca criada por moradores do Capão Redondo em sua relação com a construção de laços de pertencimento social. Já Seham Ochoa e Jose Eugenio Menezes analisam, em Orquestra Jazz Sinfônica e seu público: Estudo de um ambiente comunicacional, os vínculos que envolvem a orquestra e os ouvintes a partir da etnografia da comunicação. Para Caren Silva e Antônio Lima, no trabalho O fenômeno booktube: uma análise do canal Tiny Little Things, os canais literários se tornaram um espaço onde leitores trocam experiências e tecem uma rede de influência, objeto de análise. E em Fogo no circo: livro-reportagem e memória, de Bruna Araújo e Soraya Ferreira, as autoras buscam entender o lugar do livro-reportagem enquanto narrativa capaz de atuar como guardiã da memória individual e coletiva.

A edição é finalizada com a resenha As Vozes do Cinema Novo e o Legado do Cinema Nacional: Proposta e Limitações, de João Pedro dos Santos e Michael Peixoto, que busca traçar uma relação entre forma, estética, formatação e questões de representação do documentário “Cinema Novo” (2016), de Eryk Rocha.

Que a leitura desta edição da Iniciacom seja revigorante a todos e todas que valorizam e apostam na autonomia e competência de nossos pesquisadores em formação na área da comunicação social. Nossos especiais agradecimentos aos avaliadores e avaliadoras que se comprometeram a apreciar os trabalhos e elaborar um parecer, qualificando ainda mais as produções ora publicadas. Esta publicação é uma conquista coletiva de quem defende a comunicação como um direito e como um dever cidadão, um espaço de luta pela ciência e pela vida.


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